domingo, 25 de maio de 2008

A moda, o sexo e a cidade


Em uma cidade onde o cinismo é tão comum quanto roupas de lã nessa época do ano, não há nada melhor do que se preparar para sair em um sábado à noite. Talvez o fato das pessoas procurarem um olhar em sua direção, em meio à multidão que abarrota as diferentes festas abrigadas no coração de Pelotas, faça com que procurem algo que as destaque na noite, a fim de se deixarem sentir inebriadas e excitadas pela música e diversão. Mas algo é estranho quando se vive na noite, e quando mantemos contato com as pessoas que convivem conosco somente nesse cenário um tanto quanto lúdico e instigante. Muitas delas são solteiras, lindas, bem sucedidas, e esbanjam um leque de qualidades, através de sua inteligência e elegância, mas possuem uma vida amorosa caótica, devido ao fato de não conseguir sustentar nenhum relacionamento, ou de não conseguirem leva-los adiante, fazendo-os sobreviver à noite. Mulheres independentes, que possuem uma carreira, dinheiro, amigas, e por conseqüência, são bem sucedidas, tem um sério problemas com os homens, esses atributos são algo que repelem a ação do homem enquanto centro e controlador de todo relacionamento. Convivendo com essas mulheres, em diferentes locais noturnos dessa cidade, é fácil perceber que os problemas são sempre os mesmos. Mas apesar de respirarmos a vida noturna, e essa sociedade da “beleza para o outro”, podemos nos arriscar por exemplos de mulheres tão bem sucedidas quanto às que freqüentam nossas festas, que independente das mais belas criações e roupas modeladas em seus próprios corpos pelos mais badalados estilistas, voltam para casa sempre abraçadas e envolvidas por seus Versace’s, Gucci’s e Vuitton’s solitários.
Quem diria que Madonna, ícone da moda, e referencial de personalidade, desde seu surgimento no cenário da indústria fonográfica e da cultura mundial, no final da década de 80, teria sérios problemas quanto à seu primeiro marido, controlador e violento, que foi incapaz de conviver com tamanha onipresença, bem como uma mulher bem sucedida em sua vida profissional. Não precisamos retomar décadas passadas para ilustrar nossa reflexão e chegar a um consenso. Desde o início desse milênio, com o ressurgimento da cultura pop, mulheres solteiras e fabulosas estamparam capas de revistas, superlotaram arenas e estádios ao redor do mundo, e celebraram seus casamentos diante da mídia, com as mais famosas grifes e estilistas, sem ao menos emplacarem um sucesso número um em suas vidas amorosas. De relacionamentos duradouros e bem sucedidos entre a moda e mulheres influentes da cultura pop, temos as superproduções de videoclipes da cantora Britney Spears, vestida da cabeça aos pés por Versace, em clipes como Overprotected e Overprotected (Darkchild Remix), e resultados como mais 60 milhões de álbuns vendidos ao redor do mundo. Não tão longe de nós, até mesmo Ivete Sangalo, após seus relacionamentos frustrados, não resistiu ao glamour de um casamento com as criações de Alexandre Herchcovitch, em todo o figurino do seu último DVD – Ao Vivo No Maracanã. Um outro exemplo são as personagens do seriado norte-americano, Sex And The City, que virou filme e estréia no final de maio de 2008 na telona. Carrie Bradshaw (Sarah Jéssica Parker), e suas três amigas, trintonas e bem sucedidas, se reinventam a cada dia, na fabulosa Manhattan, a fim de provar que os homens são hoje apenas mais um acessório, assim como bolsas Fendi, sapatos Manolo Blahnik, um copo de Starbucks e muitas risadas nos mais badalados locais da ilha, onde desfilam as marcas mais famosas do mundo.
Quanto mais influentes e poderosas essas mulheres se tornam, em meio a sociedade que vivem, mais condicionados tornam-se os homens às mulheres dependentes do seu poder aquisitivo, bem como do seu mau gosto por escolhas presunçosas e pretos básicos, que cobririam sem nenhuma sombra de dúvidas, com tamanha elegância, um féretro de uma senhora de noventa e oito anos, hoje, em uma capela de Manhattan.



Guilherme Ziemer

Um comentário:

Dani Palazzo disse...

Bom texto. Guilherme escreve mesmo muito bem. Acho porém, que a humanidade está, de certa forma, buscando algo além dessa "beleza para o outro". Existe uma "moda" do bem-estar que vai além do "parecer bem". Creio que saúde tem sido o foco por trás da beleza. No cotidiano atribulado de quem trabalha correndo contra os ponteiros do relógio, busca-se um bem estar mental aliado ao físico. Uma bela mulher preocupada, cansada, com dores, fica "feia". Já aquela que dormiu bem, descansou e está de bom humor acaba parecendo mais bonita, com um "natural glow". Acho que as pessoas estão valorizando isso como nunca, nas atribulações diárias do nosso tempo. E qualquer semelhança entre essas palavras e o texto sobre a palestra do Lipovetsky do post acima, não é mera coincidência. Hehe :)

Estou adorando esse espaço criado pelo Jairo! Espero que, além do Guilherme e eu, outros colaborem. Dar uma paradinha na Estação da Moda é básico. ;)